
A Idade Média e os Vasconcelos
Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho
A história é uma ciência rica e profícua. E é dela que, muitas vezes, surge uma identidade individual, vez que, se nossos sobrenomes estão à mesma ligados de maneira indelével, brota o orgulho e a felicidade nos seus portadores. No caso dos Vasconcelos, o período de notoriedade é a Idade Média.
Para que o leitor se situe, começo a discorrer sobre a referida época.
Por volta do século I, o Império Romano adotou uma política de estabilidade fronteiriça, em que não mais anexaria territórios estrangeiros, mantendo a unidade política já adquirida. Isso fez com que viesse a ocorrer uma crise de mão de obra, já que grande parte dos trabalhavam para os latinos era de escravos recrutados nas terras conquistadas: fez-se a famosa Crise do Século III, em que as defesas ficaram desguarnecidas contra eventuais invasores, especialmente os germanos. E não tardou para que estes, como demais grupos bárbaros (citas, alanos, hunos, ávaros, alamanos, címbrios, tentões e outros) viessem a, gradativamente, penetrá-las, ocasionando um êxodo em massa para as áreas rurais e a Queda definitiva em 476.
As massas procuraram abrigo nas grandes propriedades rurais, que produziam os alimentos do Império, num processo de ruralização. Os germanos também as ocuparam, e impuseram aos proprietários o sistema de hospitalitas, em que a maior parte da produção lhes pertenceria. Este sistema, apoiado e também adotado pela Igreja Católica Apostólica Romana (detentora do status de religião oficial desde o Imperador romano Constantino, e proprietária, no seu auge, de 1/3 das terras agricultáveis da Europa), se sustentava por meio da conversão forçada e trabalho servil, nas mencionadas propriedades, daquela população despossuída e de outros territórios porventura dominados, e que se tornariam autossuficientes feudos, geridos pelos senhores feudais (também, e normalmente germanos).
Os senhores exerciam seus poderes sobre as populações dos feudos nas condições de reis, príncipes, marqueses, duques, condes, viscondes ou sob outros títulos de nobreza (normalmente, dosreinados surgiriam os países que hoje conhecemos). Como, implicitamente denotado, o mais poderoso dos títulos de nobreza era o de rei, seus feudos eram suficientemente grandes a, por suseranos que eram, e tendo em vista relações de fidedignidade e vassalagem, concederem terras a vassalos, que os administravam como duques, condes, viscondes ou outros títulos, em troca de parte da produção e serviço militar aos suseranos (que lutavam, entre si, nas guerras interfeudais). Todos podiam ser suseranos e vassalos. Nos feudos eram, de modo escravocrata, construídos castelos para a armazenagem de alimentos, residência dos senhores feudais, aprisionamentos de infratores e fortificações de defesas.
O mais famoso de todos os franco-germanos foi o conquistador Carlos Magno, anexador de grande parte da Europa Ocidental, e que tornou-se o maior dos suseranos, submissor dos demais, e dos vassalos, às suas vontades, bem como à conversão forçada de suas populações, razões pelas quais foi agraciado, pela Igreja Católica Apostólica Romana, como título de Sacro Imperador Romano-Germânico, no Natal de 800.
É neste ponto que o articulista ansiava chegar.
O sobrenome Vasconcelos (ou Vasconcellos), provém, provavelmente, do apelido basco-euskera Basconcilos (ou Basconcillos, também havendo registro de Uasconcilos e Uasconcillos, que significa "pequenos bascos"), cuja localização geográfica era o País Basco (na atual Espanha). A Península Ibérica se encontrava sob domínio árabe, impositor de derrota ao então Reino Visigótico, por meio do Califado Omíada, de 711 a 750, e sendo, esde então, ocupada pelo Califado Abássida.
Carlos Magno tentou, em Saragoça, forçar os árabes a um retrocesso para o Estreito de Gibraltar. Fracassou perante os abássidas, e, no retorno ao futuro Sacro Império, em 778, destruiu Pamplona, no País Basco (ainda que fossem cristãos), forçando uma provável retirada de portadores do sobrenome rumo ao oeste, onde vários se instalaram nas terras que viriam a ser as Galícias portuguesa e espanhola.
Ocupados, os Reinos de Portugal, e Castela-Leão (que nunca chegaram a ter regimes feudais, como o conjunto do Sacro Império, mas, sim, governos centralizados e baseados no sistema senhorial e de administração visigótica, embora a Espanha só viesse a se unificar, na sua totalidade, em 1492, com a Reconquista de Granada), se aliaram para expulsar os árabes. E, como eventual descendente dos expurgados do País Basco por Carlos Magno, em 1248 foi combatente no cerco a Sevilha o cavaleiro medieval português D. João Péres de Vasconcelos, conhecido como "o Tenreiro".
D. João, considerado o primeiro a utilizar o sobrenome aportuguesado, era senhor da Torre de Vasconcelos, em Braga, e seguidor militar do Rei Fernando III de Castela-Leão, "o Santo". A contribuição de Péres de Vasconcelos e seus comandados foi crucial na tomada da cidade, num ponto inflexivo determinador do encadeamento posterior de ocorrências resultantes em total expulsão abássida, no citado 1492.
Só que a participação da família Vasconcelos, na história ibérica e portuguesa, não aí se limita (embora fosse suficiente a até hoje reverberar): ainda durante o Califado Abássida, na Península, houve o surgimento de um rico-homem do Reino de Portugal, Mem Rodrigues de Vasconcelos, descendente de Péres de Vasconcelos e aliado do Rei português D. Dinis na guerra entre o mesmo e seu irmão, D. Afonso IV. D. Dinis, receoso do avanço de D. Afonso, ordenou a construção da Torre Penegate para a proteção de Me. No fim, D. Afonso venceu, mas a Mem incluiu no corpo diplomático garantidor da paz com Castela-Leão, o que ecoou, ao menos, até a crise sucessória de 1383-1385, quando os hispânicos intentaram, novamente e sem sucesso, anexar o Reino.
Há muitos Vasconcelos influenciadores da história ibérica, brasileira e africana. Este articulista poderia citar várias, mas o presente texto, já por si extenso, ficaria interminável. Resta, ao cabo, o enorme orgulho, em especial da ascendência menos remota.
Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho
Membro da Academia Brasileira de História e Literatura


